Alfabetização e o Método Fônico

janeiro 18, 2020


Citações retiradas da matéria Questão de Método, publicada na Revista Educação, Edição 108 — Agosto 2001

SOBRE O DEBATE

"Até então considerado o que havia de mais moderno e eficaz entre as teorias de ensino, o construtivismo passou a ser alvo mais frequente de ataques:

Mesmo os seus mais fiéis adeptos reconhecem que seu emprego na educação básica brasileira vem sendo, no mínimo, distorcido. O conceito preconiza que é preciso levar em consideração a bagagem cultural adquirida pela criança antes de ingressar na escola. A técnica consiste em apresentar o mundo letrado ao aluno diretamente por meio do texto, mesmo antes que ele seja capaz de decodificar cada palavra.

Pois é exatamente aí que se encontra a raiz do problema brasileiro:

Os que pregam a concepção construtivista muitas vezes ignoram que esses estudantes-mirins trazem de casa uma bagagem bem mais vazia do que se esperava. Eles herdam dos pais uma história de defasagem educacional.

"É a mesma coisa que pegar um texto em alemão, entregar a alguém que não conhece a língua e pedir para ler. Ou pegar uma partitura de Chopin e dar para um iniciante em música", comenta o professor Fernando Capovilla. coordenador do Laboratório de Neuropsicolingüística Cognitiva Experimental (Lance), do Instituto de Psicologia da USP.

Capovilla afirma que o construtivismo condena as crianças de classes menos favorecidas ao fracasso escolar. Além de questionar a validade da concepção usada no Brasil, ele é um dos mais ferrenhos defensores do emprego do método fônico. Taxado de antiquado por educadores ligados ao Ministério da Educação, o método prevê o básico: ensinar às crianças a correspondência entre sons (fonemas) e letras (grafemas).

Para Telma Weisz, supervisora do programa de alfabetização do MEC, o método fônico sempre teve defensores e sempre terá:

"Mas o mundo mudou e ele continuou como era na década de 20. Sempre haverá gente com uma visão mais tecnicista do ensino e para estas o método fônico é mais adequado".

SOBRE A PESQUISA

"Nos Estados Unidos, [...] o National Institute of Child Health and Human Development (Instituto Nacional de Saúde da Infância e Desenvolvimento Humano) fez, entre 1997 e 1999, a pedido do Congresso norte-americano, o mais completo levantamento já produzido naquele país sobre métodos de alfabetização. Batizado de National Reading Panel (Painel Nacional de Leitura), a pesquisa tinha como objetivo descobrir se a abordagem fônica era realmente eficaz. Para executar o trabalho, foi formada uma comissão composta por pesquisadores, representantes de escolas, professores e pais.

Numa primeira etapa, o grupo identificou cerca de cem mil estudos sobre alfabetização realizados no país desde 1966 e selecionou os mais relevantes. Foram realizadas diversas audiências públicas, nas quais o tema foi amplamente debatido. A partir desse levantamento, a comissão elaborou um relatório, apresentado ao Congresso em fevereiro de 1999. A conclusão da pesquisa foi de que as crianças alfabetizadas por meio de métodos fônicos desenvolvem melhor a compreensão e interpretação de textos, além de melhorar a expressão oral.

"As descobertas mostraram que ensinar as crianças a manipular fonemas foi altamente efetivo sob uma variedade de condições de ensino e uma variedade de alfabetizandos de diferentes séries e idades", atesta o estudo. Os participantes do painel destacam que o treinamento em consciência fonética não constitui um programa completo de leitura. "No entanto, ele dá à criança conhecimento essencial sobre o sistema alfabético. É um componente necessário a um completo e integrado programa de leitura", afirma o relatório.

Outras entidades, como a International Reading Association (Associação Internacional de Leitura), dos Estados Unidos, também defendem a utilização do método fônico. Segundo dados da instituição, 98% das escolas norte-americanas utilizam o sistema em seus programas de alfabetização. "O ensino de fonética, que foca a relação entre sons e símbolos, é um importante aspecto no começo da alfabetização. Porém, uma instrução fônica efetiva deve estar encravada num contexto de leitura e linguagem", defende a associação."

SOBRE A ESCOLA EM MARÍLIA

"Localizada na periferia do município de Marília (SP), a Escola Municipal Fundamental Professor Nelson Gabaldi era um retrato do fracasso do ensino público. Há dois anos, de uma turma de quarenta alunos matriculados na quarta série, dez não sabiam ler e escrever. Na primeira série, a situação era ainda pior: metade dos alunos terminava o ano sem estar alfabetizada. "Aqui nós não aplicamos o construtivismo de jeito nenhum. O sistema dá certo para aluno rico, não para as nossas crianças, que não têm um livro sequer em casa", diz a diretora Ilza Seabra.

A escola, com 650 alunos, passou a empregar o método fônico e, segundo a direção e os professores, está conseguindo alfabetizar os alunos. "A Secretaria de Educação adota a linha construtivista, mas nos deu uma espécie de liberdade vigiada para mudar de tática", explica Ilza.

Para corrigir as deficiências dos alunos, foi preciso realfabetizá-los. "Pegamos os estudantes de todas as séries que não sabiam ler e recomeçamos do zero com o método fônico", afirma a diretora. A professora Pedra Bertazzi de Camargo, da quarta série, diz que acompanhou na escola crianças alfabetizadas pelo construtivismo e pelo método fônico e notou que a diferença é grande em favor das últimas. Hoje, apenas dois alunos entre quarenta não sabem ler e escrever adequadamente, média cinco vezes menor do que há dois anos. "Com crianças carentes, sem estrutura, não dá para aplicar o construtivismo", comenta.

A professora Ana Cláudia de Souza, da primeira série, vai mais longe: "No meu primeiro ano aqui na escola, eu trabalhei na concepção construtivista, na qual eu até acreditava na época. Mas, depois que passei a usar o método fônico e vi os resultados, percebi o mal que tinha feito com meus primeiros alunos.""

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